quarta-feira, 4 de julho de 2012

O cabo-verdiano não vai mudar a sua forma de fazer campanha

*Artigo de Opinião*

A forma de se fazer campanhas eleitorais em Cabo Verde é bastante peculiar, mas será difícil ou quase impossível de mudá-la. Várias são as razões que impedem que essa mudança ocorra, mas eu vou cá enumerar apenas três:

1. O povo gosta de espetáculos
É certo e sabido como os espetáculos mexem com a psique humana; se não houver barulho, é porque não se está vivo e se não se estiver vivo não serve.
Em todas as campanhas, pelo menos ca em Santiago, os políticos medem forças com a quantidade de aparatos que conseguem aglomerar durante os dias de Campanha (carros de som, indumentarias, bandeiras, balões coloridos e outras parafernálias carnavalescas).
Isto afeta e de que maneira o comportamento das pessoas e sua atitude com relação às suas decisões. Quanto maior é o aparato, mais majestoso parece. Como dizia alguém, tem que se fazer visível para se fazer notado e admirado.
O barulho e a confusão passam a mensagem de ganhador, arrasta multidões e serve de chamariz, pois as pessoas mesmo que não tendo convicções fortes, não querem estar do lado de um perdedor.
A ausência disso demonstra fraqueza, fragilidade e inoperância da máquina politica por parte do grupo.
O povo prefere isso ás vezes muito mais do que ouvir propostas concretas (espero que isto mude).

2. Campanha reduz as distâncias entre o poder e povo
Durante as campanhas eleitorais, existe uma linha ténue entre os governantes e povo. A caça aos votos obriga a que os políticos desçam dos seus pedestais e percorram achadas e cutelos para mostrar ao seu eleitorado de que ele conta e que contam com ele.
Por seu lado o povo se deleita com o facto de pertencer ao grupo de detentores do poder e por alguns dias fingir que esta no comando da situação. Chantageia, faz jogo duplo, exige, dá “ramoki”, extorque promessas e renova votos de fidelidade a uma determinada causa.    

3. Campanha traz desafogo
Durante as campanhas abre-se os cordões à bolsa. Há mais sensibilidade social, paga-se copitos, almoços jantares e há quem mesmo consegue arrecadar mais uns troquitos pois há mais movimentação de dinheiro.
Assim, campanha cumpre um papel social de permitir que muitas panelas sejam postas ao lume e que haja algum refrigério financeiro para quem o dinheiro é uma raridade.
Pelas razões acima apontadas e outras que não foram ca mencionadas, achamos quase impossível, pelo menos a médio prazo, uma campanha com carater diferente. 


TENPU PINHA ARENEGU NONA; TENPU NONA ARENEGU PINHA
No final de cada campanha eleitoral assiste-se a acusações mútuas de parte a parte sobre compra de votos e consciência, corrupção, pressão, utilização indevida da coisa pública, etc.

Os vencidos sempre argumentam que foram roubados, que as eleições não foram justas e livres, que houve macumba, interferência do diabo entre outras coisas macabras.
Os vencedores aplaudem, acham que o povo foi soberano e fez a escolha acertada.
É interessante ver como as opiniões se mudam consoante os interesses: se eu ganhar, não houve falcatruas, se for o meu adversário a ganhar é porque algo esteja errado.

Mais interessante ainda é ver que esta postura não é apenas apanágio daqueles que desconhecem os meandros da política e são destituídos das mais elementares regras do jogo democrático. É uma doença cronica que afeta os políticos da classe alta a começar pelos seus dirigentes.

É só atentarmos nos discursos protagonizados pelos líderes dos dois 2 maiores partidos da oposição: acusações mútuas e agressões verbais; do lado do ganhador, rasgados elogios ao povo e do lado do vencido impropérios.

O apelo ao respeito pelas regras democráticas, pelo civismo, seriedade e outros atributos são esquecidos no calor dos resultados, transformando-se os mesmos em gladiadores (passo a expressão) cada um tentando dar o golpe final no seu adversário.

Todos nos gabamos dos avanços que a democracia em Cabo Verde ganhou nos últimos anos; concordo plenamente que de 1990 para cá demos um passo enorme no campo politico-democrático. No entanto é bastante assustador, os contornos que essa democracia vai tomando concernente ao respeito pelos outros e pela diferença.

Esta atitude de intolerância fomentada pelos líderes políticos instalada e institucionalizada e é contagiante. Não raro ouvimos comentários do tipo: “Os do PAICV não prestam, são isso, aquilo e aquele outro. Ou “os do MPD são todos arruaceiros, isso, aquilo e quele outro”
E assim no seio das populações vão se criando fossos e distâncias entre pessoas, baseados nas opções políticas. E as pessoas reúnem-se, convivem e fazem amizades não baseadas em sentimentos que nutrem umas pelas outras mas em opções partidárias.

Urge mudar esse quadro para que se crie um ambiente mais saudável e permitir que as pessoas tenham mais maturidade politica e decidam em consciência. Mas isso deve começar de cima, os líderes têm que mostrar hombridade, civismo e maturidade pois, são role models e quer queiram quer não, influenciam multidões com as suas palavras e atitudes. Os exemplos vêm de cima.

Como diz a minha mãe, “tenpu pinha arenegu nona; tenpu nona arenegu pinha”, ou seja, se estiveres do meu lado, prestas, se não estiveres, és um zero à esquerda.

Á guisa de remate, queria realçar o impacto negativo que isso acarreta a nível das massas que para além de deixarem de acreditar nos políticos têm uma atitude pouco abonatória para quem já desempenhou ou desempenha cargos de importância a nível do Governo e do Estado.  


Elsa Furtado